A maior obra-prima da literatura de todos os tempos
não é mais que um dicionário em desordem.

Jean Cocteau

An alphabetical arrangement of anything is a cowardly
retreat from an intelligible ordering of the material.

Mortimer J. Adler

Em 1755, Dr. Samuel Johnson, invulgar filósofo do senso comum, compilou seu dicionário altamente opinativo, um trabalho tão sério quanto excêntrico. Era uma forma de refinamento da gramática inglesa e a condenação de vocábulos tidos como bárbaros, baixos ou simplesmente impraticáveis numa mesa de jantar. Cerca de um século e meio depois, foi publicado o Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce. Tal qual Johnson, é opinativo e excêntrico; sem carregar, no entanto, a seriedade do doutor. Hoje este Dicionário Invertebrado não é apenas um herdeiro dessa tradição, é o fidalgo que há onze avós não sabe o que é nobreza.

O Dicionário Invertebrado é um ajuntamento de idéias improváveis que nada tem de metódico, não procede de muita ordem nem da alfabética. Em relação a seus famosos antecessores, muitos vocábulos não estão presentes, porém novas palavras foram incluídas, como Lobby, Relativismo, Pós-modernidade. Neste dicionário, há momentos de introspecção sincera, o que o diferencia do sempre cínico Bierce; mas quando a serenidade acontece, é algo fora de controle, descompasso que Dr. Johnson certamente lamentaria.

Tentamos (na verdade fui só eu, só que escrevemos assim mesmo) organizar os verbetes segundo os temas e estilo, contendo definições no sentido mais estrito, conceitos vagos ou aforismos mal disfarçados, alguns desgraçadamente infames. É forçoso avisar da presença de alguns trocadilhos, a vantagem é que são intransponíveis para qualquer outra língua, diminuindo bastante as chances de contaminação. Às vezes, um verbete precisa de outro para ter significado, normalmente brigam entre si, um vaivém de idéias em que não se pode negar certa unidade – ainda assim, invertebrada, uma legítima confusão de nosso mundo. Pois este dicionário talvez seja, em toda história da lexicografia, sem veemência, a menor fraude de todos os tempos.

Esperamos (espero, espero) que os leitores peguem este opúsculo e leiam cada verbete com atenção. Ao final, se entenderem que nada de bom pode ser movido por moralismo fácil, mas unicamente pela imaginação sem história, d’espírito franco, é porque resolveram fazer outra coisa.

I.T.

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